“Nosso
anjo usa o lábio dos outros para conversar conosco. Preste atenção”. Disse
Paulo Coelho.
Penso
diferente desse escritor, pois se assim fosse dificilmente iriamos conversar
com nosso anjo. Muitos não têm tempo para esse diálogo. Mudo, assim iria ficar
nosso anjo! Alguns até conseguem o precioso tempo para conversar, mas esquecem
que palavras ditas sem sentimento tornam-se muitas vezes malditas. Será mesmo
que falando dessa forma estamos conversando com nosso anjo? Já dizia Zeca Baleiro: “Eu
não sei dizer. O que quer dizer. O que vou dizer. Eu amo você. Mas não sei o
que. Isso quer dizer”. Por
isso, nem sempre são os lábios dos outros que nosso anjo usa. Ele pode utilizar
também outro recurso surpreendente.
Certa
vez, durante uma viajem internacional, percebi que no avião seria quase
impossível um diálogo com alguém, pois a maioria dos viajantes eram alemães.
Logo pensei, será um verdadeiro tedio! Oito horas e meia mudo e calado. Não
suportaria!
Mas a
vida sempre tem uma lição para nos dar. Levantei para ir ao banheiro, a fila
estava enorme. Um senhor Alemão aguardava sua vez, depois dele logicamente
seria eu. Mas na espera, por incrível que pareça, começamos um diálogo. Mas que
diálogo seria esse já que não sabíamos falar a língua um do outro?
Iniciamos
a primeira sintonia através do olhar, por traz desse olhar um sorriso,
traduzido em: olá,
oi. Ainda
na fila, uma situação engraçada. Turbulência, muita turbulência, que obrigou
todos a segurarem em alguma coisa ou voltarem para seus lugares. Neste momento,
outro sorriso, que traduziu em: posso te ajudar? Seguramos
um no outro, pois não havia outro local, a não ser o ombro do próximo. E lá
ficamos, um segurando o outro, até a poeira baixar. Quando a turbulência
passou, outro sorriso, desta vez materializando um muito obrigado. Sorrimos
muito, assim agradecemos a segurança. Por fim, o momento de ele entrar no
banheiro chegou. Mas antes de fechar a porta, outro sorriso, simbolizando
alegria. Após uma longa espera finalmente a bexiga seria esvaziada. Quando saiu
do banheiro, o último sorriso. No entanto, desta vez, esse sorriso veio
acompanhado de um forte abraço simbolizando a despedida, pois sabíamos que não
mais nos encontraríamos naquele avião. Depois disso, entrei pensativo no toilet.
Saindo
do banheiro iniciei uma conversa comigo mesmo. Pensei que a barreira da língua
não é o problema quando existe sentimento de alegria e afeto. Pensei que um
sorriso transcende a linguagem oral e permite a comunicação não verbal. Foi uma
viajem que pude conversar bastante, mesmo não falando uma palavra em Alemão.
Percebi que quando estamos abertos, sem preconceitos, podemos conversar mesmo
calado. Martin Luther King, líder de movimento pacifista, afirma: “Pouca coisa é necessária para transformar
inteiramente uma vida: amor no coração e sorriso nos lábios”. Fiódor Dostoiévski,
um dos maiores escritores russos, diz: “Conhecemos um homem pelo seu riso; se na
primeira vez que o encontramos ele ri de maneira agradável, o íntimo é
excelente”.
Surpreendente
viagem
aérea! Eu que pensei que seria entediante, que não teria companhia alguma, me
surpreendi. Encontrei dois ótimos companheiros. Que me ensinaram novos valores,
e me mostraram que o sorriso precisa ser exercitado para permitir a aproximação
do nosso anjo. Sorrindo abrem-se as portas para um excelente dialogo! Primeiro
o sorriso, depois as palavras ditas com sentimentos. Das duas companhias apenas
uma ainda está comigo. Minha consciência! Bom que pude apresenta-la ao jovem
senhor de barba branca e chapéu na cabeça.
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